Muito tempo já se passou desde que comecei a escrever sobre a Arte de Amar (aproveito para remeter o leitor ao que chamei de Amor com á maiúsculo, essencial para o contexto, pois não estou falando de sentimentalismo aqui!). Faltava ainda discorrer sobre o último ponto, o que faço agora.
"Fazer-se um" pode ser definido como "participar da realidade do outro". Chiara Lubich usa também a expressão "viver o outro". É basicamente deixar de lado o ego, para absorver as necessidades alheias.
A meu ver, dois elementos aqui merecem destaque: o conhecimento do outro, para melhor amá-lo, e a transformação de si, no contato com ele.
A Regra de Ouro já prega que nos coloquemos no lugar do outro ("ama como a ti mesmo"). O "fazer-se um" vai além, colocando o próximo ainda mais em relevo. É um exercício de empatia, que nos ajuda a distinguir a necessidade, nem sempre evidente, do próximo. Não é aos nus que queremos alimentar nem aos famintos que queremos vestir (Mt 25, 35-36), não é mesmo? Faz-nos também adquirir uma curiosidade salutar sobre o mistério que é o outro ("Quem é este ao meu lado? Que angústias ou inquietudes trará?"). E mais do que apenas racionalizar um vago "se fosse comigo", a proposta é que nutramos uma identificação com o outro: sofra com quem sofre e sorria com quem sorri. Com uma tal sensibilidade, estaremos mais do que preparados para amar como devemos.
Um primeiro senão à proposta seria o receio de perda da individualidade, daquilo que nos faz únicos. Quem vive assim não se tornaria uma espécie de camaleão, sem cor própria? Salvo exageros, penso que não. Primeiro, porque não acredito numa espécie de identidade pré-fabricada. Claro, temos predisposições natas, mas muito do que somos se deve à experiência pessoal; e nisso, quase sempre, entra o próximo. René Girard nos diz que aprendemos a desejar com outro. O desejo, sustenta ele, é suscitado menos pelo objeto e mais por um modelo com quem nos identificamos. Bom, mas já divaguei demais. Meu ponto é que é inevitável que nossa identidade envolva o que nos é externo, então é aceitar isso e procurar boas influências, bons modelos. Isso já acena também para a resposta à próxima objeção.
Outra possibilidade seria cair num relativismo frouxo, professando posições irreconciliáveis, vivendo contradições. Chiara, porém, nos diz: "fazer-se um em tudo, exceto no pecado". (Entendamos pecado aqui como aquilo que nos afasta do bem, não como proibições arbitrárias de um deus caprichoso.) É um porém essencial, pois se o "fazer-se um" nos transforma, convém que nos privemos de compartilhar atitudes danosas.
Fica então a proposta: faça essa experiência de mergulhar no mistério de cada próximo e se deixar transformar pelo que descobre de positivo. Você vai descobrir como amar melhor a cada um e certamente sairá enriquecido.
Thirteen Days – 2000 – Roger Donaldson
6 horas atrás


Comments
5 Responses to “Arte de Amar: fazer-se um”
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Oi André,
08:01muito bom o texto! Gostei mesmo...vc conseguiu "traduzir" muito bem a idéia do "fazer-se um".
Abraço,
Chiara
Olá André,
10:57Muito bom o texto!
Abração,
Flávio Nunes.
Oi André,
15:34Gostei bastante do texto. Vc já tentou escrever um conto ou algum outro tipo de ficção que ilustre esse exemplo? Tipo uma experiência inventada. Acho que exemplos concretos são muito poderosos e o movimento dá bastante ênfase em relatos de coisas que aconteceram, principalmente em primeira pessoa, mas o cristianismo tem uma longa tradição de parábolas e outras ficçoes ilustrativas que ao que me consta é negligenciada pelo movimento. Nao que o movimento nao dê bola pras parábolas da bíblia, mas ele nao cria ficcoes novas, cria? Pepê e Jotabê?
abração!
Rafael
Já tive algumas ideias de contos, mas tenho dificuldade de levás-las adiante. Meu principal problema é o hiato entre minha capacidade de criticar textos (que considero acima de média, se me permite, hehe) e minha habilidade para produzi-los (que não é lá grande coisa). Começo a escrever e logo depois desanimo.
15:50Enfim, tenho tentado me permitir errar mais, para não ficar paralisado por isso. Quem sabe qualquer dia consigo alguma coisa?
de fato um controle de qualidade muito rigoroso pode atrapalhar. mas acho que a prática pode levar a melhor solução, i.e., elevar o nível da escrita em vez de relaxar a auto-crítica =). but anyways, pra minha crítica seus texto passam com muita folga pelo crontrole de qualidade.
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