Arte de Amar: ver Jesus no outro

8 de maio de 2009

Peço aos leitores ateus/agnósticos que não ignorem o texto simplesmente pela referência a Jesus. Sei que o nome é repelente para irreligiosos, mas me dirijo também a eles. Espero que o conteúdo seja proveitoso para qualquer pessoa que se queira aprimorar no Amor com á maiúsculo.

Para começar, enfatizemos que, na perspectiva cristã, Jesus é um homem que encarna Deus-Amor e ama profundamente a humanidade, revelando assim a natureza íntima do Pai. Cristo é, assim, a pessoa que mais ama e, consequentemente, a mais digna de amor. Com efeito, tendo experimentado um tal amor, é natural que o cristão queira retribuí-lo. Porém, como concretizar esse ardor de reciprocidade?

É disso que trata este terceiro ponto da Arte de Amar, que aponta uma identificação entre Jesus e o próximo. O evangelho o indica claramente: "(...) sempre que o fizestes [o bem] a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes" (Mt 25:40). Assumindo como seu aquilo que é feito aos outros, Cristo lhes empresta a própria dignidade.

"Aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê", encontramos também nas escrituras (1Jo 4:20). Essa não é uma mera frase de efeito, mas o cerne da questão. Como poderia o homem "ajudar" a diretamente a Deus, que não tem necessidades intrínsecas, que é autossuficiente? Sua "carência" — se me permitem — é voluntariamente emprestada da humanidade. Ele quer "precisar" de nós, de nossa felicidade; não como precisa da mãe o bebê, mas como esta precisa do filho. Eis uma troca simpática, então: Deus nos concede sua dignidade, e nós lhe oferecemos nossas necessidades.

Esta é a única forma de retribuir o amor dele recebido. É a chave de leitura da passagem completa da primeira citação (Mt 25:31-46), que fala do "tive fome, e me deste de comer; tive sede, e me deste de beber", e inspirou um belo conto do Tolstói. Alguém passa frio? É este o próximo a quem devemos amar. Há fome? Solidão? Doença? Desespero? Ajudemos quem sofre, e estaremos amando a Deus.

O importante, então, é tentar perceber a peculiar dignidade que tem cada próximo, pois somente em suas necessidades poderemos concretizar o Amor ao amor, que é o que há de mais nobre. Este amor que poderia ser simples devaneio, mas que é verdadeiro quando o realizamos amando as pessoas. Mãos à obra!

Comments

6 Responses to “Arte de Amar: ver Jesus no outro”
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Thiago disse...

Pode discutir metafísica e filosofia da religião aqui?

13:07
André disse...

Manda ver...

18:22
Thiago disse...

Não seria mais simples cortar o intermediário e simplesmente ficar com as tuas frases finais que dizem "ajudemos quem sofre" e que "o importante é tentar perceber a peculiar dignidade que tem cada próximo"?

Pensar na minha vida como uma experiência similar às outras 6 bilhões que agora se passam (e 100 bilhões que já se foram) é suficiente para que eu queira ajudar quem sofre. Se existisse um Deus que não quisesse que eu ajudasse a humanidade, eu me rebelaria.

Deus é realmente necessário para justificar agir de forma humana e benévola?

12:04
André disse...

A hipótese de Deus, no sentido de uma doutrina monoteísta, realmente não é essencial para isso. Porém, isso não desabona a fé de forma alguma. A questão não é tanto sobre o que é necessário, mas sobre o que é desejável.

Assim, a resposta literal à sua segunda pergunta seria um "não". Por outro lado, sacralizar o Amor é mais eficaz para o bem do que sustentá-lo apenas na razão ou no sentimento. Amparar-se demais no raciocínio é uma bela maneira de ficar à deriva. A lógica pressupõe verdades. Sendo estas frágeis, por melhor que seja o encadeamento, as conclusões são frágeis.

A razão e o sentimento são essenciais, só não são suficientes. A fé (que é mais do que acreditar, diga-se) também desempenha papel importante.

16:08
Frank Sonnek disse...

oi andré! conheço você atraves o site "confessing evangelical".

bom esta blog!

amor e em atos. nao precise deus ou fé ou nada para realizar amor. quem precise pão para evitar fome e recebe isso, ja recebeu amor. Pronto! Naõ importa mais nada para entender amor. nem motivo. nem sentimentos, nem nada. abraço!

18:02
André disse...

Oi, Frank. Obrigado pelo recado! Você também tem blog?

Abraço!

18:11